Mãos do mestre mostram molde a Mancini
Das montanhas para o Planalto Central, do Planalto Central para as montanhas, a criação de azulejos é revalorizada com objetivos estéticos e intenções sociais

“Ele é tido como o herdeiro”
Em 2004, o artista plástico belo-horizontino Alexandre Mancini, então com 30 anos, começa a desenhar alguns padrões de azulejos motivado pelo misto de diversão e inquietude. Ele acaba cooptando ao universo do qual Athos Bulcão é a estrela guia.
Nasce um discípulo, realizando a travessia Brasília-Minas, ainda que a adesão não seja tarefa das mais fáceis. Ao rol dos empecilhos, Mancini acrescenta o fato de o mercado disponibilizar poucas publicações sobre azulejaria. “Somente em 2006 me senti seguro para fazer as primeiras peças, apesar de ter uma infinidade de desenhos prontos. E, a partir deste ponto, quando senti a realização batendo à porta, decidi trabalhar unicamente com os azulejos”, relembra Mancini, hoje considerado “herdeiro de Athos Bulcão” em Minas.
Melhor é que o destino trate de dar uma mãozinha e propicie o encontro entre discípulo e mestre. “Em 2008 fui a Brasília, mesmo sabendo que ele estava muito doente e que corria o risco de não conhecê-lo”. A Fundação Athos Bulcão se encarrega da ponte com o enfermeiro que acompanhava Bulcão: por sorte, naquele dia o mestre estava bem e poderia, sim, receber Alexandre.
“Fui encontrá-lo no Hospital Sarah (Kubitschek), do Lago Norte”, rememora Mancini. Ele descreve o encontro como um dos momentos mais emocionantes da vida. “Lembro-me de cada detalhe, das cores, da luminosidade, da umidade. Sentei-me com o mestre à beira do lago e ele disse: ‘Esta vista me lembra a da Casa do Baile’. Simplesmente agradeci - por todos os ensinamentos e por sua obra ter mudado a minha vida”.
Mancini lamenta que o estado de saúde de Bulcão não permitiu conversa mais longa nem mesmo um abraço apertado. “Mas saí de lá com a certeza que deveria continuar naquele caminho e que cada obra que realizasse seria uma pequena homenagem a ele”.
Athos Bulcão morreria meses depois.
O que encanta Alexandre Mancini são a simplicidade e a delicadeza na obra do mestre. “ao estudar sobre azulejaria, era inevitável estudar Athos BUlcão. Ficava horas tentando entender o ritmo dos painéis ou como achava formas geométricas tão simples, as cores… Isso foi decisivo na minha escolha”.
No início da caminhada profissional de Mancini, em 2010, o uso da composição modular aleatória, o ato de reservar a montagem do painel com plena liberdade ao operário e a paleta de cores reduzida faz parte do que chama de “primeira fase”, que rende casos curiosos. “Fui ao escritório da obra mostrar ao operário como ele deveria proceder para o assentamento dos painéis que fiz para a Praça da Pampulha. Estavam lá o engenheiro, o mestre-de-obras e o operário. À medida que explicava, os dois primeiros na hierarquia ficavam dizendo ao operário: é assim, entendeu? Mas eles sempre estavam errados. O único que entendeu, desde o início, foi aquele que iria de fato montar o painel, por ter ouvido quando disse: Se você quiser fazer certo vai dar errado, pense nisso como uma brincadeira com seus filhos. E deu certo!”.
Por falar em filhos, é justamente ano passado, quando nasce Helena, primeira filha com a designer de jóias Rachel, que o trabalho de Mancini dá uma guinada. “Agora utilizo muitas cores, formas geométricas mais complexas, composições mais trabalhadas. Mesmo assim, preservo vários conceitos ensinados por Bulcão”.
Alexandre Mancini entende que Bulcão é a síntese da azulejaria brasileira. “Com ele, nossa arte atingiu um patamar muito elevado. Não há artista no mundo que fez o que ele inventou. Só que Athos foi muito mais do que um artista dos azulejos. A obra dele é extensa em vários suportes”.
Apaixonado pela história da azulejaria, Mancini quer dar continuidade à tradição. “A arquitetura moderna brasileira ficou desgastada a partir do final dos anos 1970, sofrendo críticas, principalmente, pela massificação e uso leviano de seus ensinamentos. Grafismos de gosto duvidoso, a preços baixos, apareceram revestindo, ao mesmo tempo, banheiros e fachadas com materiais de baixa qualidade que trincavam e se destacavam das paredes, gerando preconceito com relação ao material”.
Com a evolução da indústria cerâmica, os grandes formatos e o porcelanato tomaram conta do mercado junto como o mármore e o granito. Somando esses aspectos à arquitetura comercial consequente da especulação imobiliária - que ainda se impõe - com seus produtos “mornos”, sem risco ou ousadia, aos painéis de azulejos resta a pecha de “coisa do passado”.
No que diz respeito ao status de arte em outros países, Mancini observa que a produção azulejar portuguesa continua ativa, “mas, infelizmente, sem muito diálogo” com os artistas brasileiros. “Constantemente, troco e-mails com um dos maiores artistas portugueses, Eduardo Nery. Ele acredita que seja mesmo o Brasil o país a ter potencial para se fixar como um dos mais importantes e ativos países a produzir uma azulejaria de expressão plástica e artística. Os motivos? Mancini lembra que há pouco mais de seis anos, praticamente ninguém falava sobre azulejaria, muito menos sobre uma azulejaria brasileira. “E em tão pouco tempo consegui atingir um volume de obras e exposições consistentes, o que me faz crer que houve uma grande valorização”.
Sobre a coleção de Ronaldo Fraga inspirada em Athos Bulcão, Alexandre Mancini diz que conheceu Ronaldo através de uma amiga em comum que o presenteou com um dos azulejos do belo-horizontino. Outra vez, o destino. “Coincidentemente, ele estava preparando a coleção sobre Athos; com muita gentileza e cordialidade, me convidou para o lançamento da coleção no São Paulo Fashion Week. Ficamos surpresos, boquiabertos e emocionados com o resultado do trabalho”, afirma Mancini.
Jornal Hoje em Dia | Caderno Mosaico | Brasília 21.04.11 | Belo Horizonte 24.04.11